Leitura Partilhada
quinta-feira, março 11, 2004
  A propósito de Bergson-Imposturas Intelectuais
A propósito de Bergson, talvez seja interessante referir o seguinte livro: Imposturas Intelectuais, de Alan Sokal e Jean Bricmont, publicado pela Gradiva em 1999. Pelo menos é uma história divertida!

"O único objetivo destes autores parece ser demonstrar erudição,

mesmo que isto não seja relevante." — Alan Sokal


Em 1996, a influente revista de filosofia americana,Social Text , publicou um artigo intitulado-«Transgredir as fronteiras: rumo a uma hermenêutica transformativa da gravitação quântica», em Alan Sokal, eminente professor de Física na Universidade de Nova Iorque apontava as profundas semelhanças entre a teoria da gravitação quântica e a filosofia pós-moderna.
Durante algum tempo, este artigo foi amplamente divulgado e aclamado nos meios académicos ligados à filosofia e à sociologia, até que, num espetacular golpe de teatro, Sokal revela que tudo não passou de um embuste. Num desfecho digno da fabula "O rei vai nu", Sokal revelou que se tinha limitado a juntar frases sem sentido usando a impenetrável linguagem dos teóricos da pós-modernidade e o jargão tecnico das ciencias fisicas.

Na sequência do que ficou conhecido por "O caso Sokal", Sokal e o fisico francês Jean Bricmont escreveram o famoso Imposturas Intelectuais, assim descrito pelos próprios autores:

Mas o que reivindicamos exactamente? Nem muito nem pouco. Mostramos que intelectuais famosos, como Lacan, Kristeva, Irigaray, Baudrillard e Deleuze, abusaram repetidamente da terminologia e de conceitos científicos, quer usando ideias científicas totalmente fora do seu contexto, sem para tal fornecerem a mínima justificação -note--se que não nos opomos à extrapolação de conceitos de uma área para outra, mas apenas à que é efectuada sem qualquer tipo de argumentação-, quer lançando o jargão científico à cara dos leitores não cientistas, sem considerarem a sua relevância ou mesmo o seu sentido. Não reivindicamos que esta atitude invalide o resto da sua obra, em relação à qual evitamos qualquer juízo.

Por vezes somos acusados de sermos cientistas arrogantes, mas a nossa opinião sobre o papel das ciências exactas é, na realidade, bastante modesta. Não seria óptimo (quer dizer, para nós, matemáticos e físicos) se o teorema de Gödel ou a teoria da relatividade tivessem implicações profundas e imediatas no estudo da sociedade? Ou se o axioma da escolha pudesse ser usado para estudar poesia? Ou se a topologia tivesse algo a ver com a psique humana? Mas, infelizmente, nada disto é assim.

O segundo alvo do nosso livro é o relativismo epistémico, nomeadamente uma ideia que, pelo menos quando expressa explicitamente, está muito mais espalhada nos países anglo-saxónicos do que na França: a ideia segundo a qual a ciência moderna não é mais do que um «mito», uma «narrativa» ou uma «construção social» entre muitas outras5. Além de alguns abusos enormes (por exemplo, Irigaray), analisamos em pormenor uma série de confusões muito frequentes nos circuitos do pós-modernismo e dos estudos culturais: por exemplo, a apropriação abusiva de ideias da filosofia da ciência, tais como a subdeterminação da teoria pelas provas e pelos testemunhos ou a ideia de que a observação depende da teoria, para apoiar o relativismo radical.

Este livro é, portanto, constituído por duas concepções distintas, embora relacionadas entre si. Em primeiro lugar, há a colecção de abusos extremos descobertos muito ao acaso por Sokal: são essas as imposturas do título desta obra. Em segundo lugar, há a crítica que fazemos ao relativismo epistémico e às concepções erradas de «ciência pós-moderna»: estas análises são consideravelmente mais subtis. A ligação entre estas duas críticas é fundamentalmente sociológica: os autores franceses das «imposturas» estão na moda em muitos círculos académicos anglo-saxónicos, nos quais o relativismo epistémico é o pão nosso de cada dia6. Há também um vínculo lógico mais ténue: se se aceita o relativismo epistemológico, então há menos razões para se discordar das más representações das ideias científicas, que de qualquer forma não passam de um outro «discurso».


Bergson é um dos filosófos analisados neste livro, mas ao contrário da maior parte dos visados, é-lhe reconhecida uma profunda honestidade intelectual, afirmada pelo próprio Sokal numa entrevista ao Nouvel Observateur:


N. O. - A cet égard, Henri Bergson, à qui vous consacrez un chapitre entier, est un cas à part.

A. Sokal. - Avec Bergson, on ne peut pas parler d’imposture. Il a vraiment essayé de comprendre la théorie de la relativité, mais ses préjugés philosophiques étaient tels qu’ils lui rendaient impossible cette compréhension. Einstein a essayé de la lui expliquer, ils se sont même rencontrés, mais rien à faire : Bergson a décrété que le différend avec Einstein était d’ordre philosophique, alors qu’il s’agissait purement et simplement d’erreurs de physique.





Joana
 

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